Agronegócio

Assim era o Natal no interior

No interior, mesmo sem calendário, era possível sentir a aproximação do Natal pelo canto das cigarras no lusco-fusco do dia. Bastava uma ligar o motor para que as outras também dessem a partida, concatenadamente. Ligar o motor por que, literalmente, parecia-me o canto da cigarra igual ao ronco do motor estacionário que meu pai mantinha para tracionar a velha trilhadeira, utilizada para separar os grãos de milho da palha e do sabugo. Papai enrolava uma cordinha na antepolia do dito cujo e puxava-a com toda a força que dispunha (ou era técnica?). O Montgomery começava tossindo, depois ia ganhando fôlego até estabilizar, igualzinho ao canto da cigarra. 

Outro bichinho que indicava a chegada do Natal era o vagalume, que talvez você conheça por pirilampo. Os insetos riscavam o céu com a luz irradiada pela fosforescência da parte inferior do seu abdômen, provocando em minha imaginação diversas analogias, desde cometas até lanternas voadoras. Três deles no vão das minhas mãos eram suficientes para que eu dispusesse de uma lamparina imaginária, com alcance de até dois metros. Muitos pousavam nos cinamomos plantados ao redor da casa, formando assim verdadeiras arvores natalinas iluminadas naturalmente. Depois de horas de observação eu tinha de entrar, pois a Dona Nega já havia anunciado pela quinta vez que o jantar estava servido. 
Quinze dias antes do Natal as vizinhas trocavam dias de serviço para lavar as casas de madeira. Minha mãe (a Dona Nega) participava dessa força-tarefa. As casas eram lavadas com água corrente, escova e sabão. Tirava-se toda a mobília para fora e depois da casa ficar brilhando colocava-se tudo de volta. Dias mais tarde o forno de barro expelia um cheiro delicioso vindo das bolachas de manteiga assando ao calor das brasas, que depois eram cobertas com glacê e bolinhas coloridas. Mamãe também fazia cuca e meu pai, ajudado por um tio, carneava o porco que havia sido apartado dos demais sessenta dias antes justamente para esse fim. Dele saíam belos nacos de carne, além de banha, torresmo e salame. 

Na véspera, à noite, íamos ao culto religioso. Papai Noel tinha presença garantida após a reza. Para ganhar caramelos precisávamos responder positivamente à seguinte pergunta disparada pelo velhinho de barba branca: obedeceu ao pai e a mãe? O “sim” saía sussurrado e tremido enquanto Noel ia apanhando os doces para nos entregar. Os mais velhos (que já sabiam de tudo) tentavam surrupiar as balas e os pirulitos que ele levava numa espécie de mala de garupa, mas ele defendia os doces com uma varada no meio do lombo dos larápios, que saíam se coçando porta afora. Essa parte era bem complexa para mim, uma vez que na minha concepção o velhinho era um cara piedoso, por outro lado, quem mandava provocá-lo? 
O almoço de Natal dava-se na casa da Nona, sempre com mesa farta, até com uma pitada de exagero, característica peculiar da italianada. A cada ano conhecíamos novos primos, a família crescia impulsionada pelo grande número de filhos que o Nono e a Nona possuíam. Parentes vinham do Rio Grande do Sul, cada um trazendo novidades, era a oportunidade para colocar a conversa em dia. As crianças divertiam-se e lambuzavam-se com os pirulitos que apitavam, ganhados das tias, enquanto o Nono jogava pontinho com os genros. Ao final de um longo dia, recheado de conversas, risadas, brincadeiras, “comes e bebes”, todos retornavam às suas casas. Muitos voltariam somente no Natal seguinte. 

O Natal no interior era tão mágico quanto bucólico.
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