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Feiras agrícolas: recordes de negócios ou ilusão?

Especialista diz que os números nunca mostram retração



“Nos meus quase 30 anos de experiência no setor, não me recordo de um único ano em que os números divulgados por essas feiras tenham mostrado retração" “Nos meus quase 30 anos de experiência no setor, não me recordo de um único ano em que os números divulgados por essas feiras tenham mostrado retração" - Foto: Divulgação

Segundo Eduardo Lima Porto, da LucrodoAgro Consultoria, as feiras agrícolas brasileiras seguem um padrão curioso: todos os anos anunciam recordes de negócios, independentemente das crises no setor. Mesmo com estiagens, alta de custos e restrição de crédito, os números sempre crescem, criando uma ilusão de prosperidade que pode distorcer a percepção sobre a realidade do agronegócio.  

“Nos meus quase 30 anos de experiência no setor, não me recordo de um único ano em que os números divulgados por essas feiras tenham mostrado retração. É sempre a mesma história, como se estivéssemos diante de um universo paralelo, onde o agronegócio vive em um eterno ciclo de prosperidade”, comenta.

O caso do Rio Grande do Sul exemplifica essa desconexão, segundo ele. Em 2024, a Expointer registrou R$ 8,1 bilhões em negócios, superando o valor de 2023, apesar das enchentes que devastaram lavouras e infraestrutura. A Coopavel 2025 seguiu o mesmo roteiro, anunciando R$ 7,05 bilhões em negociações. No entanto, dados da Serasa Experian apontam um aumento de 523% nos pedidos de recuperação judicial de produtores rurais, evidenciando o endividamento crescente do setor.  

Além disso, a ABIMAQ reportou queda expressiva nas vendas de máquinas e implementos agrícolas, segmento que domina as feiras e movimenta bilhões em financiamentos. A contradição, para o especialista,  é evidente: como esses eventos podem registrar volumes recordes se o setor enfrenta dificuldades severas?  

De acordo com ele, as feiras agrícolas divulgam números inflacionados, mascarando a crise do setor e dificultando o acesso a medidas emergenciais. Isso enganaria o governo, investidores e bancos, comprometendo decisões estratégicas no agronegócio.

“Se esses eventos não são parte efetiva da negociação real de compras e vendas, mas apenas um espaço temporário – e caro – de exposição, então seus organizadores deveriam, no mínimo, ser mais responsáveis na divulgação dos números. E assim, ano após ano, seguimos vendo a ficção dos números das feiras contrastando com a dura realidade do campo”, conclui.
 

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