Agronegócio

Tripulação: portas em automático!

Nessas andanças por aeroportos e aeronaves brasileiros, chama-me a atenção o comportamento de algumas pessoas. Comportamento que coloca em risco a própria segurança e a segurança das outras pessoas, além de descompassar o fluxo normal dos processos, na contramão de que tudo funcione o mais próximo possível do jeito que foi desenhado. Notem vocês que não trataremos das pessoas neste espaço, mas sim dos seus comportamentos inadequados, principalmente quanto ao uso do telefone celular. Bem assim, um certo livro de educação infantil cujo nome me fugiu da alçada mnêmica ensina que, quando necessário, devemos questionar o comportamento das pessoas, mas nunca as pessoas, pois são dádivas divinas.

Antes de cada decolagem, as companhias aéreas reproduzem alguns procedimentos de segurança a serem repetidos em caso de sinistro. Para quem viaja com certa frequência isso se torna monótono e com o tempo são grandes as chances de serem preteridos. Há quem acredite que sejam desconexos, pois, numa queda de avião, a probabilidade de alguém escapar com vida é remota. Porém, se a queda for na água, por exemplo, ainda que só tenhamos aquele vagabundo 1% de chance de sobreviver, fará toda diferença saber que o assento das poltronas tem a função de boia, que poderá nos manter flutuando até a chegada do resgate.
E o celular? Ah! O celular. Algumas pessoas estão tão ocupadas com o aparelho, que simplesmente cegam-se ao repasse dos procedimentos de segurança. Desta forma a segurança pessoal perde de goleada o jogo contra o celular. Sem falar que muitos aparelhos não podem permanecer ligados durante o voo, nem mesmo no modo “avião”, todavia, alguns desatentos/teimosos não resistem. Um que outro, ao sentirem a aproximação dos comissários de bordo, ainda escondem rapidinho o aparelho no bolso. Por suposto, quem é viciado em celular geralmente vai negar isso, assim como a maioria dos alcoólatras jura que só bebe socialmente.

O celular também é responsável por alguns contratempos em aeroportos. O cidadão está mergulhado no celular, em estado de transe. No sistema de som é anunciado o início do embarque e ele ali, hipnotizado. Os passageiros vão embarcando, um a um, e o cidadão inerte, cabresteado. Não, estimado leitor, ele não está trabalhando e, tampouco, estudando, está vendo aqueles vídeos estéreis compartilhados via WhatsApp. Então a companhia aérea adota o procedimento de emergência: chama-o pelo nome, uma, duas vezes. Na terceira e última chamada o indivíduo se dá conta de que é ele quem está atrasando o voo e, para não perdê-lo, sai correndo, enlouquecido, em direção ao portão de embarque.

Não tenho dúvidas que o celular trouxe comodidades e benefícios às pessoas. Tenho dúvidas, todavia, se, colocados numa balança, tais benefícios são mais pesados que suas perniciosidades. Não tenho dúvidas que muitos utilizem o celular para trabalhar, estudar e encurtar distâncias. Tenho dúvidas, todavia, se, por motivos fúteis, famílias, amizades, culturas, não estão sendo derretidas por este aparelho. Não há como negar que o celular é tentador, e como ser humano também luto para não virar seu refém. Não há como negar, outrossim, que durante o trabalho o cidadão é tentado a largar tudo para atender aquele assovio alienante.

A humanidade está vivendo um ciclo, o ciclo do entretenimento tecnológico, do qual estamos na crista da onda. Mas como para tudo há um tempo certo, quem sabe daqui alguns anos as pessoas venham a se lamentar do tempo ao qual se deliciaram com os açucares dos celulares e que agora lhe provocam diabetes. Receio, conquanto, que a futura decadência do celular provoque o homem a inventar outro modismo. Afinal, a alienação humana às tecnologias frívolas provoca o consumo, e este, por sua vez, alimenta o capitalismo selvagem. Enquanto isso, é inadiável remediar os efeitos colaterais emburrecedores do celular nos seres humanos, antes que o comandante coloque as portas do avião em modo automático.

Para refletir: “O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”. Norman Vincent
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