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Eleições 2016: derrota honrada ou vitória nefasta?

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26/09/2016 - 00:00

Edivan Júnior Pommerening

Zezinho não queria ser candidato a prefeito naquelas eleições, mas, tanto a comunidade, os amigos e os correligionários de partido insistiram que acabou encarando o desafio. Entorno de quatro mil pessoas formavam o plantel eleitoral do município onde morava.
Na largada da campanha parecia que a eleição estava ganha, contudo, seu oponente passou a investir pesado na compra de votos e a coisa começou a mudar de figura. Diante disso, os correligionários passaram a pressionar nosso personagem a adotar a mesma “estratégia”.
De início Zezinho negou veementemente, pois alegou não ter “jeito” para a coisa e, afinal, essa foi uma das condições que o fez aceitar o convite para ser candidato. Comprar votos era algo inconcebível para ele. - Já investimos quatrocentos mil reais nessa campanha, esbravejou o tesoureiro do partido.
A pressão foi tanta que Zezinho não suportou. Com cinco mil reais no bolso, na antevéspera da eleição, foi visitar uma família numerosa, que detinha quinze votos. Papo vai, papo vem, e Zezinho já havia detalhado todo seu plano de governo, mas não conseguia entrar naquele assunto escamoso.
A agonia lhe provocou náuseas. Gotas frias de suor lhe brotavam da testa enquanto o anjo do bem e o anjo do mal ferviam seus ouvidos de argumentos. A família até deu uma indireta, mas Zezinho não conseguiu. Voltou para a sede do partido com os cinco mil reais que havia levado.
- E aí, como foi a visita? Perguntou o marqueteiro de campanha. - Não consegui! Respondeu Zezinho. - Como assim, não conseguiu? - Não consegui! Reiterou Zezinho. - Minha consciência não deixou. Foi um balde de água fria para o comitê de campanha, que de pronto se “emburrou” com o candidato.
Como sempre, a eleição foi agitada naquele pequeno município. Os votos eram disputados “a tapa”. Ainda que proibido por Lei, candidatos e seus mandatários faziam “boca de urna” e apanhavam os eleitores menos instruídos em casa, numa tentativa derradeira de garantir o voto.
Zezinho saiu de casa só para votar, pois estava com um nó na garganta. Passou o dia com a família, em silêncio, ouvindo as notícias que chegavam pela emissora de rádio local e acompanhando o movimento da rua pela janela da sala. Enquanto isso seus cabos eleitorais empregavam os últimos esforços.
Pouco mais de uma hora do término do horário de votação, veio o resultado: Zezinho havia perdido o pleito por treze votos. Ele praticamente foi linchado pela coligação. - Se tivesse comprado aqueles quinze votos venceríamos com sobras, vociferou o presidente de um partido coligado.
Para preservar sua família, Zezinho teve que sair da cidade. Juntou sua inquietude, a esposa e a mudança e rumou para a capital gaúcha. Por meses ficou transtornado, contudo, aos poucos, foi se confortando com ideia de que mais vale uma derrota honrada do que uma vitória nefasta.
Hoje, dezesseis anos depois, Zezinho é um cara que se orgulha da limpeza da sua consciência. Voltou a sua cidade natal, embora alguns dos seus “colegas” naquela campanha ainda não lhe dirijam a palavra. Em contrapartida, conquistou a simpatia de outros que na época eram seus adversários políticos.
Nos fins de tarde costuma sair para caminhar com a esposa e os dois filhos pequenos, e poder fazer isso de cabeça erguida pelas ruas da cidade onde mora não tem preço. Por essas e outras atualmente é prefeito no seu município, eleito por consenso com oitenta e nove por cento de aprovação.
 
            *História inspirada em fatos reais
 
Para refletir: “O campo da derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer” (Abraham Lincoln)




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